Caravana
Agroecológica visitou comunidades da bacia do São Francisco no norte da
Bahia para visibilizar os conflitos e a degradação ambiental gerados
pelos projetos de desenvolvimento apoiados pelo Estado brasileiro
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| Foto: Luna Layse Almeida/COFASPI |
Sabiá, São Tomé, Monteiro, Brejão da Caatinga, Pacuí. São muitas
comunidades diferentes, com problemas comuns: conflitos fundiários e por
água envolvendo agricultores familiares e o agronegócio, uso
indiscriminado de agrotóxicos, falta de saneamento básico e ausência de
políticas públicas para manter pequenos produtores e comunidades
tradicionais em seus territórios. Essas foram algumas das questões
relatadas pelos moradores das localidades pelas quais passou a Caravana
Agroecológica do Semiárido Baiano, que percorreu a bacia do rio São
Francisco, no norte da Bahia. Fruto de uma articulação entre a
Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e o Ministério Público
da Bahia e dezenas de outras organizações, a iniciativa reuniu cerca de
70 pessoas, e a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio
(EPSJV/Fiocruz) esteve presente. O objetivo da caravana? Dar
visibilidade à denúncias, conflitos e experiências de resistência e
organização das comunidades frente aos impactos promovidos pelo
agronegócio, pela mineração e pelas grandes obras que os viabilizam,
como os barramentos de rios para captação de água e geração de energia. A
reportagem do Portal EPSJV acompanhou uma das rotas da caravana, que
percorreu localidades ao longo de um dos afluentes do São Francisco, o
rio Salitre. Foram mais de 800 quilômetros, percorridos ao longo de três
dias, entre 27 e 29 de junho.
André Búrigo, professor-pesquisador da EPSJV e um dos articuladores da
caravana, explica que a rota ao longo do Salitre foi pensada como um
microcosmo da realidade da bacia do São Francisco. “O Salitre espelha o
que está acontecendo hoje em todas as outras sub-bacias que deságuam no
São Francisco”, analisa. Búrigo afirma que a caravana contribuiu para a
análise do papel que o Estado brasileiro tem tido historicamente naquela
região com a promoção de um modelo de desenvolvimento cujos benefícios
não se estendem para a maioria das populações dali, que são as mais
vulneráveis aos impactos negativos desse modelo. “O Estado brasileiro
está muito presente quando grandes empreendimentos, que produzem um
conjunto de impactos, são instalados. Por outro lado, temos um Estado
mínimo no que diz respeito à proteção da biodiversidade, da garantia dos
direitos, das políticas sociais para as populações mais
vulnerabilizadas. É uma regra que se expressa no país como um todo e que
aqui vimos o poder de destruição”, ressalta Búrigo.
Salitre: de afluente a receptor das águas do São Francisco
A primeira parada já deu o tom da natureza dos conflitos que a caravana
observaria ao longo de seu percurso. Na comunidade de Sabiá 2, em
Juazeiro, conhecemos o seu Lôu, que relatou os problemas enfrentados
pela comunidade para o abastecimento de água. “Eu sou salitreiro, mas o
nosso Salitre hoje tá difícil”, lamenta. “E tá difícil por quê? A
gente acha que o desenvolvimento se desenvolveu demais, nosso riachinho
que era pouco secou, não tá chovendo. Não tem como molhar as plantas”,
completa seu Lôu. Ali acontece uma situação curiosa: sobre o leito do
rio Salitre correm, no sentido inverso ao fluxo original, as águas do
São Francisco.
O Salitre secou ali depois da construção de barragens rio acima, no
município de Ourolândia, no início da década de 1980. Diante dos
conflitos pela água entre grandes proprietários, beneficiados pela
construção da barragem, e os pequenos proprietários atingidos pela seca
do rio, a solução encontrada foi construir ainda mais barragens, dessa
vez para abastecer parte das comunidades localizadas no baixo Salitre,
onde o rio secou. Em um primeiro momento foram construídas três
barragens para reter a água, pela prefeitura de Juazeiro.
Posteriormente, a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco
(Codevasf), ainda na década de 80, construiu mais seis barragens e as
equipou com um sistema de abastecimento por bombeamento em sequência, a
partir do rio São Francisco. São as chamadas barragens galgáveis. Na
última década a Codevasf construiu um canal de águas do São Francisco e
duas adutoras para viabilizar a fruticultura irrigada na região através
do Projeto Salitre. Com a água chegou toda a lógica de produção da
Revolução Verde, com intenso uso de agrotóxicos, que beneficia
principalmente grandes proprietários. Somadas as obras de barragens
galgáveis com o canal de irrigação e adutoras o que ocorre na região é
um tipo de transposição das águas do São Francisco.“Isso mostra o caos
que é esse modelo”, ressalta Josemário Gonçalves, técnico do Instituto
Regional para Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), que presta
assessoria técnica voltada para convivência com o semiárido e promoção
da agroecologia na região. “O São Francisco, de receptor, passou a doar
água para a bacia. É insustentável”, completa.
Hoje os moradores denunciam que ainda têm que disputar a água com
empresários do agronegócio que se instalaram ali depois que ela passou a
chegar até o local. Uma disputa ingrata: as comunidades denunciam que a
gestão do sistema é feita por uma empresa privada, a Agrovale, que
utiliza uma grande quantidade de água para produzir cana de açúcar e
frutas para exportação. O que sobra abastece os pequenos produtores do
baixo rio Salitre. Mas com a falta de chuva na região – em alguns
locais, a estiagem já dura 10 anos, segundo moradores – esse arranjo
não tem sido suficiente. “E há uma contradição muito grande”,
complementa o técnico do Irpaa. “O custo de captar do São Francisco e
trazer para cá faz com que a água fique caríssima. A associação de
produtores da região paga R$ 16 mil por mês para a Codevasf. Enquanto
isso tem produtores ligados ao agronegócio no perímetro irrigado que não
pagam nada”, critica. Segundo Josemário, as terras ao longo do Salitre
estão entre as mais férteis do mundo, o que acirra também os conflitos
fundiários. “Hoje a situação é que as famílias ribeirinhas não têm
terra. As terras foram compradas e ocupadas por grandes projetos e
muitas famílias às vezes preferem deixar de produzir em pequena escala
de forma agroecológica para trabalhar como diaristas nas roças dos
grandes empresários”, ressalta Josemário.
Os mais velhos ainda se lembram do tempo em que suas comunidades eram
banhadas pelo Salitre, antes da chegada dos grandes projetos que
prometiam trazer o desenvolvimento. É o caso de dona Maria Antônia, de
70 anos, moradora da comunidade de Brejão da Caatinga. “Este rio era a
nossa vida, dependíamos dele para tudo. Era daqui que a gente tirava
nossa sobrevivência: a gente tinha peixes aqui; as pessoas plantavam
batata, cana. Tínhamos até engenho que moía cana. Era no rio que a gente
lavava roupa, que a gente ia buscar água”, enumera. “Hoje não temos
mais nada disso, nosso rio está morto. É uma tristeza”, lamenta.
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| Foto: Luna Layse Almeida/COFASPI |
Na comunidade quilombola de São Tomé, pertencente ao município de Campo
Formoso, os mais velhos contam histórias parecidas. Na época de chuva, o
Salitre também passava por ali até o início da década de 1980. “A gente
tinha roça, tirava nossa comida de lá. Plantava feijão, milho, mamona,
algodão. Nas vazantes por onde passava o rio tinha a batata-doce, a cana
de açúcar. Aqui se produzia mel, tinha engenho onde se fazia rapadura”,
lembra dona Eunides, da Associação Comunitária Quilombola do Povoado de
São Tomé. “Hoje não temos mais essas coisas, mas estamos batalhando.
Ainda tenho muita vontade de ver água nas nossas vazantes, nos nossos
rios, descendo, para que a gente ainda tenha como plantar. Porque hoje
quem tem condição de furar seu poço planta suas verduras. E quem não tem
fica ganhando um dinheiro chorado nas roças dos que plantam, arriscando
sua vida lá no meio dos agrotóxicos”, complementa.
Já no povoado de Lagoa da Canabrava, a reivindicação dos moradores e
pequenos produtores rurais é outra. Ali há água em abundância, desde que
foi construído um sistema de captação para agricultura irrigada em
meados dos anos 1980, com financiamento da Superintendência de
Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a partir do projeto de um
empresário local. O empreendimento, que segundo Ramalho José dos Santos,
da Associação Comunitária dos Pequenos Produtores Rurais do Povoado de
Lagoa de Canabrava, chegou a empregar cerca de 800 pessoas, foi
desativado há duas décadas. Desde então, a associação vêm reivindicando a
revitalização do local para viabilizar a agricultura irrigada pelos
pequenos proprietários da região. “Aqui já tem a infraestrutura, já tem a
energia, é bem mais simples revitalizar esse sistema para que a gente
possa usar essa água do que furar poços artesianos. A minha roça fica a
600 metros daqui e não posso irrigar, não consigo plantar um pé de
banana”, diz Ramalho, que reclama da falta de interesse do Instituto de
Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), o órgão ambiental da Bahia,
em viabilizar o projeto. “Aqui foi tudo feito com dinheiro público, e
está aí, abandonado. E o Inema tá sabendo, mas não tá se preocupando.
Quando a gente se reúne eles dizem que vão ver o que é possível fazer
mas nunca falam 'sim'. O nosso linguajar é diferente desse pessoal que
estuda, e com isso eles vão despistando o povo com palavras difíceis,
para que o povo não entenda nada, e aí fica por isso mesmo”, critica.
Nascentes em risco
A disputa pela terra e pela água gera conflitos em comunidades ao longo
de toda a bacia. Na comunidade de Pacuí, adjacente ao rio de mesmo nome
que abastece o Salitre, o problema são as inúmeras bombas clandestinas
instaladas nas nascentes, o que é proibido pela legislação ambiental
brasileira. Moradores denunciam que o problema se agravou a partir da
instalação de um açude nas proximidades para irrigação de lavouras de
maracujá, tomate, cebola e pimentão, entre outros produtos. “Tudo com
agrotóxico”, ressalta Quézia Alcântara, da Associação Quilombola dos
Agricultores Familiares da Comunidade de Buraco e membro do Comitê da
Bacia Hidrográfica do Salitre, que tem tentado chamar atenção para o
problema. Quézia aponta que o uso indiscriminado da água, aliado à falta
de saneamento em toda a região, principalmente esgotamento sanitário e
coleta de lixo, e à falta de preservação das nascentes, desenham um
cenário de esgotamento para os próximos anos. “A gente que mora aqui se
preocupa. Eles são empresários, vêm de fora, alugam terras, fazem uma
plantação desse tamanho e usam muita água. Não tem coleta de lixo, que
acaba no rio. Se um dia acabar a água daqui, eles vão embora, vão viver a
vida de empresário deles. E a gente aqui vai ficar como? Vai ficar
sem”, alerta. Ela afirma que a associação já procurou o Inema, órgão
ambiental da Bahia, para tentar achar uma solução para o problema, mas
os moradores denunciam que há conivência por parte do órgão com os
grandes produtores proprietários das bombas. “Hoje não há nenhuma gestão
dos recursos, não há coleta de lixo, que acaba no rio. O Estado
abandonou o rio Salitre”, critica Quézia.
Para alguns moradores das comunidades da região, no entanto, o trabalho
como diarista nas lavouras irrigadas pela água bombeada das nascentes
do Pacuí é a única opção. Um morador de Pacuí, que se identificou como
Valmir, expressou receio de que as bombas fossem retiradas dali durante a
visita da caravana. “Eu concordo que tem que preservar para não secar,
mas se não tivesse a irrigação aqui, que o pessoal de fora traz, a gente
ia sobreviver do quê? A gente está na seca, não está chovendo, e aí vem
um rapaz de fora que vai dar ganho pra gente e a gente vai ser contra?
Vamos ganhar nossa diária”, disse.
Trabalho precário e exposição a agrotóxicos
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| Foto: Joelton Belau |
A captação irregular nas nascentes do Pacuí está entre as causas da
falta de água que atinge outras comunidades da região, como a de
Goiabeira. É o que diz Martinho Romualdo da Silva, que mora ali desde
que nasceu, há 79 anos. “Aqui é 'quem pode mais chora menos'. Então quem
tem bombas mais potentes puxam mais água. E os que não têm nada ficam
sem beber”, aponta. Segundo ele, o rio Salitre, que na época da cheia
passava a uma distância de 500 metros da comunidade, hoje já não chega
mais. “Os barramentos irregulares contribuem, mas há outras coisas: tudo
foi feito muito desordenadamente, não tem gestão no Salitre. A mata
ciliar, que ajuda a conservar a água, foi toda desmatada. Tem vários
trechos da calha do rio que estão assoreadas. Nossa agricultura familiar
deixou de existir a partir do momento que o agronegócio tomou à frente
desse processo”, critica Martinho. A alternativa, que seria a perfuração
de poços artesianos, esbarra no alto custo para sua implantação. “Nosso
solo é muito profundo, atinge 100 metros de profundidade, e fazer um
poço custa entre R$ 60 e R$ 100 o metro perfurado. Então o pequeno
produtor não pode perfurar o poço, e as autoridades, como a Codevasf,
não liberam recursos para isso. E a nossa produção de caprino, de ovino e
de galinhas, que a gente tem feito desde que o rio secou, não tem
suporte das autoridades”, reclama.
Hoje os moradores reivindicam a construção, pela Codevasf, de um
sistema similar ao que leva água para a comunidade de Sabiá 2, a partir
da captação do canal do Projeto Salitre, para abastecer comunidades que,
assim como Goiabeira, sofrem com a falta de água devido à seca do rio.
“Essa é uma dívida do governo do estado e da Codevasf com o salitreiro”,
avalia Adenício Gonçalves, morador da comunidade de Passagem do
Sargento, a 10 quilômetros de Goiabeira. “O Projeto Salitre tirou terra
dos salitreiros e deu para as grandes empresas, como a Agrovale, que é
dona de quase toda a área do Salitre. Eles estão aí plantando
cana-de-açúcar enquanto o salitreiro está tendo que trabalhar como
diarista, muitas vezes em condições desumanas”, denuncia Adenício, que
trabalha como agente comunitário de saúde na região. Segundo ele, são
comuns os casos de intoxicação por agrotóxicos entre os trabalhadores
diaristas. “Tem vários casos de pessoas que ficam com dificuldade pra
enxergar, casos de glaucoma. É muito comum. De vez em quando tem
mutirões do SUS para cirurgias de catarata, mas que não conseguem
atender a demanda”, revela. Em diversos momentos durante o trajeto da
caravana foi possível identificar trabalhadores aplicando agrotóxicos
nas lavouras sem nenhum tipo de equipamento de proteção contra os
venenos. “A falta de informação e de EPIs [Equipamentos de Proteção
Individual] para os trabalhadores estão entre os principais problemas.
Além disso, a empresa que deveria fazer o recolhimento das embalagens de
agrotóxicos, e a Acavasf não está recolhendo”, denuncia.
Mineia Clara dos Santos também é agente comunitária de saúde em
povoados ao longo do Salitre, além de atuar como vice-presidente do
Comitê da Bacia do Salitre. Segundo ela, esses são problemas comuns em
toda a região. “Não só no perímetro irrigado, mas no vale por onde o Rio
Salitre passa, a gente tem vários casos de pessoas que foram
intoxicadas por venenos. E a gente vê homens sem camisa, de bermuda,
descalços, espalhando veneno. E jovens também. Outro dia chegou um
menino de 14 anos na unidade de saúde totalmente intoxicado, fedendo a
veneno de cima a baixo. A gente teve casos de infarto, de pressão alta,
de pessoas com problemas de pele, com alergia, mas a população em si não
associa aos agrotóxicos”, revela. Segundo Mineia, no Salitre, onde
chega água chega também o modelo do agronegócio, mesmo entre os pequenos
proprietários. “Nas próprias roças da agricultura que se diz familiar,
mas irrigada, se utiliza agrotóxicos. O que foi colocado pra eles a
partir de 1980, na famosa Revolução Verde, foi que só se plantava com
veneno. Se você falar para um agricultor hoje da minha comunidade que
ele pode produzir sem veneno, ele diz que você está louca”, diz Mineia.
A falta de saneamento básico agrava ainda mais as condições de saúde
das populações da região, segundo a agente. “Na maioria das comunidades
que eu atuo não tem nem esgotamento sanitário e nem coleta de lixo. É
esgoto a céu aberto, então tem muitos casos de hanseníase, dengue,
zika”, lista Mineia. Em muitos locais, a solução encontrada pelos
moradores é a queima do lixo, prática que traz riscos à saúde da
população. “E por mais que a gente reclame a gente vê que essa não tem
sido uma prioridade do governo municipal, talvez por não termos uma
representação política mais forte”. Nesse quadro, a possibilidade de
contaminação dos cursos d’água por agrotóxicos se potencializa, ainda
mais porque, segundo Mineia, o recolhimento dos vasilhames de veneno é
feito apenas dentro do perímetro irrigado do Projeto Salitre. “A empresa
que recolhe os vasilhames não chega às nossas comunidades. Quer dizer, o
Vale de Salitre, por onde o rio passa, onde as comunidades vivem, onde
tudo acontece dentro da comunidade, eles não passam, não divulgam”,
observa.
Agronegócio: ocupando todos os espaços
A hegemonia do modelo da Revolução Verde, que se baseia na monocultura e
no intensivo de agrotóxicos e fertilizantes à base de combustíveis
fósseis, é apontada como um dos principais desafios no trabalho das
organizações que prestam assessoria visando a implementação de técnicas
de convivência com o semiárido e da agroecologia na região, como o
Irpaa. “É complicado mudar essa lógica em um local que está paralelo ao
agronegócio. O dinheiro circula mais rápido ali, comparado à
caprinobovinocultura e a outros sistemas produtivos das comunidades
tradicionais. Então a família, pelo viés econômico, termina aderindo a
um modelo que traz toda uma degradação ambiental e uma série de
consequências negativas que fazem com que esse dinheiro não compense no
fim das contas”, acentua Josemário Gonçalves.
Ele pontua que no vácuo criado pela falta de políticas públicas
voltadas para prestar assessoria técnica para promover a convivência com
o semiárido, o agronegócio também acaba ocupando esse espaço,
fomentando a adoção de pacotes tecnológicos, mesmo nos sistemas
produtivos mais tradicionais dos sertanejos da região. “Hoje nós temos
aqui na região o agronegócio entrando de sola na caprinobovinocultura,
promovendo raças próprias. Nós temos raças nativas da nossa região que
convivem bem com esse bioma, que comem pastando na caatinga. Se você
traz uma raça de fora, você traz também todo um pacote tecnológico que é
preciso adquirir: ração, vacina, vários medicamentos”, explica o
técnico.
Essa é uma disputa que tende a ficar ainda mais desigual em um contexto
de desmonte das políticas sociais voltadas para a agricultura familiar.
Segundo Josemário, as organizações sociais ligadas à Articulação do
Semiárido Brasileiro (ASA) sofrem hoje com o corte de recursos federais
depois da extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário. “Nós do
Irpaa não recebemos mais recursos do governo federal. Ainda temos
recursos do governo do estado, mas que tem prazo para acabar daqui a um
ano, sem perspectiva de renovação. Com isso nosso quadro de
funcionários, que hoje é de 120 profissionais para atender a 10
municípios do território do sertão do São Francisco, pode cair pela
metade. Então há uma grande dificuldade dos movimentos sociais de se
manter nesse debate”, lamenta.
Balanço e avaliação da caravana
Após três dias de viagem pelo sertão baiano, os participantes da
caravana fizeram, no dia 30 de junho, um balanço dos relatos, das
denúncias e também das experiências exitosas que testemunharam ao longo
das duas rotas, que culminou com a elaboração de uma carta política, que
ainda deve passar por alterações antes de ser divulgada. Foi também o
momento de realizar um balanço em relação aos objetivos estipulados no
processo de organização. Um deles era subsidiar a ação do Ministério
Público da Bahia em suas ações na defesa da Bacia São Francisco e das
comunidades que dele dependem.
Para a promotora de Justiça Luciana Khoury, coordenadora do Núcleo da
Bacia do Rio São Francisco, a avaliação é positiva. “Nós tínhamos uma
vontade grande de refletir a partir da caravana sobre coisas que o
próprio Ministério Público vem atuando, mas ampliando esse olhar a
partir dos movimentos sociais, a partir das universidades, a partir da
Fiocruz, a partir de todos os parceiros que se incorporaram, refletindo
essa realidade e buscando soluções para esse cenário de degradação que a
Bacia vem vivenciando hoje”, pontua. Coordenadora do Fórum Baiano de
Combate aos Agrotóxicos, ela afirma que o Ministério Público da Bahia
tem procurado participar de ações articuladas para verificar os reais
impactos dos venenos. Segundo Luciana, está em fase de elaboração pelo
Fórum um dossiê baiano sobre os impactos dos agrotóxicos, ao qual devem
ser somadas os relatos e experiências reunidos durante a caravana.
“Vimos que, em muitos municípios, não existe monitoramento da qualidade
da água em relação aos agrotóxicos. São dados importantes para a gente
identificar a falta de controle efetivo. Também vimos trabalhadores
aplicando agrotóxicos sem EPI, o que infelizmente é muito comum. Então o
Fórum está identificando esses casos e fazendo os devidos
encaminhamentos, as denúncias, e a caravana com certeza trouxe mais
elementos para esse trabalho”, avalia.
Ela destacou também a importância da articulação promovida pela
caravana diante do cenário de desmonte da legislação ambiental
capitaneado principalmente pela bancada ruralista no Congresso. “Nós
temos atualmente um PL [projeto de lei] em tramitação que propõe
isenções de licenciamento ambiental para muitos empreendimentos, que
prevê a inexistência do requisito da certidão de conformidade com o uso
do solo pelo município, o que é muito grave, e muitas outras questões.
Também temos aí a proposta do PL 3.200, que vai flexibilizar ainda mais a
legislação de agrotóxicos, que do jeito que está. já há um descontrole
enorme no Brasil, o maior consumidor mundial de agrotóxicos”, lista a
promotora. “O cenário é de flexibilização de leis e contingenciamento de
recursos para fiscalização. É um momento de muito retrocesso. A
caravana também é uma fonte de resistência a esse processo de
retrocessos, e queremos que o Ministério Público esteja nessa linha de
frente, para que a gente não permita mais retrocessos em direitos de
forma alguma”, afirma.
Para o professor-pesquisador da EPSJV, André Búrigo, a caravana
reforçou os argumentos sobre qual é o desenvolvimento que se deve buscar
para as populações do semiárido. “De certa forma existe um mito da
falta concreta de água e de que a água tem que vir para trazer o
progresso, para trazer o desenvolvimento, para acabar com a fome. Mas o
que a gente viu é que aonde essa água chegou através desses grandes
projetos de desenvolvimento, chegou através de um projeto que devasta,
que envenena o meio ambiente, que mexe nas relações sociais”, alerta.
Segundo ele, as propostas de convivência com o semiárido que as
organizações de assessoria popular, como o Irpaa, têm construído nas
últimas décadas avançam mais onde os grandes projetos não chegam. “Não é
através de grandes obras que vai se resolver a questão da falta de água
no semiárido. A questão da convivência com o semiárido passa por outros
processos muito mais de articulação local junto às associações
comunitárias. Isso é um aprendizado que fica forte da caravana”,
analisa.
Ao mesmo tempo, destaca Búrigo, a caravana permitiu identificar
contradições e dificuldades que existem para a implantação de projetos
contra-hegemônicos no campo brasileiro diante das transformações
operadas pela Revolução Verde desde a década de 1980. “É impactante
perceber o paradoxo que o agronegócio coloca às comunidades aonde ele
chega. Porque o Estado brasileiro participou disso com tanta força, boa
parte da população não consegue ver alternativa fora dele. Há uma
baixíssima consciência da gravidade da situação em muitas comunidades, e
o poder público não se interessa. A população fica refém desse grande
modelo de desenvolvimento”, avalia Búrigo.
Do ponto de vista das organizações do campo da saúde que participaram
da caravana, como a Abrasco e a Fiocruz, o professor-pesquisador da
EPSJV acredita que o evento serve para fortalecer os laços entre a saúde
coletiva e a agroecologia. “Se as tecnologias sociais implantadas pela
Articulação do Semiárido, como o projeto Um Milhão de Cisternas, tiveram
um impacto muito importante sobre os índices de mortalidade infantil e
sobre a permanência do sertanejo nas comunidades nas zonas rurais, a
Estratégia Saúde da Família certamente também teve grande impacto.
Então, é interessante que a gente olhe pra isso e perceba que são
políticas que se somam, que produzem um efeito sinérgico muito forte e
que, às vezes, são analisadas de forma muito isolada”, avalia Búrigo,
que defende que a participação da Fiocruz e da Abrasco em projetos que
articulam agroecologia e saúde precisam ser fortalecidos. “Temos que nos
integrar mais que para que nos territórios a gente possa ter
profissionais do SUS atuando junto com profissionais que estão atuando
no campo da agroecologia. A caravana é um exercício disso e ela reforça
essa necessidade”, conclui.